A produção agrícola é a principal causa de incêndios destrutivos nas florestas tropicais secas da América do Sul

Uma equipe de pesquisa internacional liderada pela HU usou imagens de satélite para reconstruir a história do incêndio do Gran Chaco, uma das maiores regiões de floresta seca do mundo

Agricultural production is the main cause of destructive fires in South  America's tropical dry forests - News - Technology Park Berlin Adlershof

Por Humboldt-University Berlin 

Todos os anos, vastas áreas de floresta queimam no Chaco Sul-Americano, uma região de floresta tropical seca que se estende pela Argentina, Bolívia, e o Paraguai forma a segunda maior região florestal do continente, depois da Amazônia. Até agora, os incêndios crescentes nas florestas secas da América do Sul eram frequentemente atribuídos às mudanças climáticas e às secas mais frequentes e extremas que elas trazem. No entanto, um estudo publicado na revista Nature Sustainability, conduzido por investigadores da Humboldt-University Berlin (HU) em colaboração com parceiros na Bolívia e na Argentina, desafia agora esta suposição.

Reconstrução do histórico de incêndios usando imagens de satélite

Usando cerca de 175.000 imagens de satélite, os investigadores reconstruíram a história dos incêndios na região do Chaco e descobriram que ocorreram incêndios pelo menos uma vez desde 1985 em dois terços da área de 1,1 milhões de quilómetros quadrados. Nos anos de seca, a floresta queima com mais frequência, mas o estudo mostra uma forte conexão entre incêndios e produção agrícola: em anos mais secos, áreas de floresta particularmente grandes são desmatadas para o cultivo de soja e a expansão da pecuária industrializada, e o uso subsequente dessas terras muitas vezes leva à eclosão de incêndios durante os períodos de seca. Estes resultados são importantes porque os incêndios libertam enormes quantidades de gases com efeito de estufa e ameaçam tanto a biodiversidade como os meios de subsistência das comunidades indígenas locais.

Esses insights também ganham importância à luz da nova regulamentação da UE para cadeias de suprimentos livres de desmatamento (EUDR), que será aplicada a grandes empresas a partir de 30 de dezembro de 2026. O EUDR exige requisitos de devida diligência para sete matérias-primas e produtos delas derivados. De acordo com o regulamento, matérias-primas como soja e carne bovina podem não ser produzidas em terras que foram desmatadas após 31 de dezembro de 2020.

Dado que o Chaco é um hotspot global para a produção de bens de exportação, como soja e carne bovina, o estudo fornece a base científica para monitorar o cumprimento de tais regulamentações. Mostra que proibições mais rigorosas de desflorestação e uma melhor gestão dos incêndios são essenciais para limitar os custos ecológicos da expansão agrícola.

A dinâmica do fogo no Chaco não é um fenômeno natural

“Quando você olha para as imagens de satélite, você não vê um fenômeno natural, mas sim dinâmicas de fogo que estão intimamente ligadas à transformação da paisagem,” explica o Dr. Matthias Baumann, autor principal do estudo e Cientista Sênior do Departamento de Geografia da Humboldt-University Berlin. “Nossos dados mostram claramente que os períodos de seca são frequentemente usados como janelas favoráveis para limpar a terra de forma barata com fogo. O fogo aqui não é uma perturbação natural ou um acidente, mas uma ferramenta do agronegócio.”

O Prof. Tobias Kümmerle, Professor do Departamento de Geografia, e líder do projeto SystemShift, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC) no qual o estudo foi conduzido, acrescenta: “A ideia de que a floresta simplesmente pega fogo porque fica mais seca é insuficiente. A mudança climática e o uso da terra agem juntos: no Chaco, ocorrem incêndios onde os seres humanos estão empurrando para trás a floresta para produzir soja e carne bovina. Alguns destes produtos chegam até nós na Europa.”
“Isso também nos dá esperança,” diz Oswaldo Maillard, coautor do estudo que trabalha para a fundação boliviana Fundación para la Conservación del Bosque Chiquitano. “Se os pecuaristas e agricultores utilizarem os incêndios de forma mais responsável e gerirmos o uso da terra de forma mais eficaz através de instrumentos como o EUDR, temos uma alavanca direta para impedir estes incêndios desastrosos.” O estudo mostra claramente que os incêndios no Chaco não são um destino climático inevitável, mas podem ser novamente restringidos através de políticas inteligentes e de uma gestão sustentável.

O estudo foi apoiado por o projeto SystemShift, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC). 

Mais informações

O estudo “Dinâmica de incêndios no Chaco sul-americano e sua ligação com a agricultura e a seca” por M. Baumann, O. Maillard, I. Gasparri, J. Burton, G. Gavier Pizarro e T. Kuemmerle foram publicados na Nature Sustainability.


Fonte: Humboldt-University Berlin

Governança sob influência: o avanço do Porto do Açu

Atuação do Porto do Açu em instâncias estratégicas expõe assimetrias e fragiliza o controle democrático em São João da Barra

Este blog vem acompanhando com interesse as evidências crescentes de que o Porto do Açu já não se contenta em manter apenas interlocutores dentro do governo municipal de São João da Barra, passando a se fazer representar diretamente em instâncias de governança e grupos de trabalho relacionados à gestão territorial e ambiental do município. Isso ficou evidente no recente imbróglio envolvendo a presidência do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, e tudo indica que essa participação direta está longe de ser um episódio isolado.

Ontem, recebi um material visual sobre uma reunião de trabalho da equipe responsável pela elaboração do novo Plano de Mobilidade Urbana de São João da Barra. Uma imagem chamou particularmente a atenção: nela aparece o gerente de Relacionamento com a Comunidade do Porto do Açu, Wanderson Primo de Sousa, segurando um mapa do município.

Como geógrafo e doutor em Planejamento Territorial, costumo afirmar que quem controla os mapas controla o território. A ideia, na verdade, remete ao geógrafo francês Yves Lacoste, em sua obra “A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”, na qual distingue entre uma geografia escolar, que frequentemente obscurece a compreensão da realidade, e uma geografia estratégica, utilizada por centros de poder para consolidar seu domínio sobre os territórios. É nesse ponto que a situação se torna particularmente sensível: a presença de um ente privado, com interesses diretos, em espaços de formulação e planejamento estratégico.

Argumenta-se que o Porto do Açu, por ser o principal empreendimento econômico local, teria legitimidade para participar dessas discussões. No entanto, essa suposta legitimidade não se traduz em igualdade de condições para o conjunto da população sanjoanense, que também será diretamente afetada pelas decisões tomadas. Em uma democracia substantiva, tal assimetria exigiria mecanismos robustos de controle, transparência e contraposição de interesses — o que, na prática, não se verifica.

Mais do que uma simples participação, o que se observa é um processo de ocupação progressiva dos espaços de decisão por um agente privado com capacidade desproporcional de influência. Isso coloca em xeque a própria ideia de governança pública, ao deslocar o centro das decisões para fora do campo democrático. Diante disso, a pergunta que permanece é incômoda, mas inevitável: estamos diante de um modelo de desenvolvimento que distribui benefícios ou de um arranjo que concentra poder, captura instituições e naturaliza a subordinação do interesse coletivo às estratégias corporativas?

A guerra contra o Irã é o momento “Canal de Suez” dos EUA?

Um cessar-fogo está estabelecido, mas a guerra continua. A nova ordem mundial dos EUA caracteriza-se sobretudo pelo caos

Manifestação em frente à embaixada dos EUA nas Filipinas.

Manifestação em frente à embaixada dos EUA nas Filipinas. Foto: AFP/JAM STA ROSA
Por Raul Zelik para “Neues Deutschland” 

Enquanto a Alemanha reclama dos preços dos combustíveis e Israel bombardeia o Líbano apesar do cessar-fogo, o debate internacional gira principalmente em torno da convulsão geopolítica desencadeada pela guerra com o Irã: apesar da esmagadora superioridade militar, os EUA e Israel não conseguiram remodelar o Oriente Médio de acordo com sua própria visão. Em vez de mudança de regime ou fragmentação permanente do Irã, o ataque americano, surpreendentemente, fortaleceu a posição do país no Oriente Médio.

O caso iraniano é semelhante, pois o fechamento do Estreito de Ormuz desencadeou uma reação em cadeia na qual os preços da gasolina na Alemanha representam um problema relativamente marginal. O bloqueio do Estreito de Ormuz tem potencial para ser uma catástrofe econômica: alimentos, medicamentos, semicondutores – tudo é afetado pela interrupção das rotas de abastecimento. Graças a Donald Trump, o Irã percebeu que pode arrastar a economia global consigo.

A posição da política externa da China está agora mais alinhada ao direito internacional do que as políticas dos EUA, de Israel e de seus aliados europeus.

É improvável que o Irã conquiste um poder tão significativo. Internamente, o governo permanece sob imensa pressão. E milhares de ataques dos EUA causaram enormes danos. Mesmo assim, continua sendo verdade que os racistas na Casa Branca erraram gravemente nos cálculos.

Aslı Bâli, especialista em direito internacional da Faculdade de Direito de Yale, descreve o desenvolvimento da seguinte forma: Donald Trump acreditava que poderia orquestrar uma “tomada de poder hostil” no Irã, como é prática comum no mundo dos negócios. No entanto, devido às interconexões globais de produção, uma reação em cadeia foi desencadeada, surpreendendo completamente a liderança dos EUA. Bâli continua: “Agora está ficando claro que os conceitos de ordem não podem ser mantidos a longo prazo apenas pela força. Quanto mais os EUA tentam impor sua vontade por meio da coerção, mais diminuem seu poder como potência líder.”

Na União Europeia, que depende da continuidade dos lucros com a exploração e a desigualdade globais dentro do sistema transatlântico de pilhagem, essa constatação talvez ainda não tenha sido totalmente assimilada. Mas está se tornando cada vez mais claro: mesmo para as elites nacionais corruptas, há cada vez menos razões para se aliarem ao Ocidente. Mesmo que o regime de segurança interna chinês claramente não esteja em conformidade com a Carta dos Direitos Humanos, a posição da política externa da China hoje está mais próxima do direito internacional do que as políticas dos EUA, de Israel e de seus aliados europeus, que se tornaram cúmplices dos crimes de guerra da última semana.

Está cada vez mais claro que o rearme da Europa irá alimentar ainda mais a espiral global de violência. O “Ocidente esclarecido”, com sua arrogância, é em si uma das maiores ameaças à paz mundial. Qualquer pessoa que queira deter senhores da guerra como Trump deve fortalecer os sistemas multilaterais de segurança, em vez de copiar seu frenesi militar.


Fonte: Neues Deutschland

Dica teatral: O Noviço no Teatro de Bolso merece ser visto

Estive ontem no Teatro de Bolso para assistir à encenação da peça “O Noviço”, escrito por Luis Carlos Martins Pena em 1845, sob direção do incansável e interminável Fernando Rossi.  E saí de lá com a impressão que a peça continua super atual, o que denota a genialidade de um dos melhores observadores da sociedade brasileira de seu tempo, e cujo olhar claramente transcendeu a sua própria época.

O mais interessante é que a encenação foi feita por um grupo de atrizes e atores locais, mas que empregaram com muita eficiência um tom adequado para manter a peça com sua pegada crítica e divertida. Com isso, mostraram para mim que a verve genial de Martins Pena continua certeira, pois, lamentavelmente, o Brasil ( Campos dos Goytacazes inclusa) não mudou tanto assim.

Por isso, como a temporada é curta, sugiro que mais gente vá ao Teatro de Bolso para assistir “O Noviço”, pois esforços de qualidade merecem casa cheia.

Importações britânicas de combustível de aviação “verde” estão ligadas ao desmatamento da Amazônia

Uma refinaria do Texas que exporta combustível de aviação sustentável para a Europa obteve sebo bovino de uma empresa de processamento de carne multada por compras ilegais de gado

UK imports of "green" jet fuel linked to Amazon deforestation

Por Naira Hofmeister, Charlotte Teunis, Hyury Potter, Lucy Jordan,  Bela de Jong e  Gabriele Di Donfrancesco para “Climate Home News”

A Diamond Green Diesel (DGD), uma das principais fornecedoras de combustível de aviação sustentável (SAF) e diesel renovável, adquiriu centenas de milhares de toneladas de sebo bovino do Brasil, juntamente com gorduras residuais de outras fontes, nos últimos três anos, à medida que a demanda global por matérias-primas para biocombustíveis aumenta vertiginosamente .

Reportagens da Unearthed e da organização investigativa sem fins lucrativos Repórter Brasil revelam a ligação da DGD com uma fábrica de processamento de resíduos animais que se abastece de um frigorífico multado por comprar gado de uma reserva amazônica desmatada ilegalmente. Uma investigação anterior da Reuters e da Repórter Brasil descobriu que a DGD havia comprado gordura animal de outras duas fábricas de processamento de resíduos animais ligadas ao fornecimento de gado de fazendas ilegais.

A fábrica recém-identificada, Pacífico Indústria e Comércio de Óleos e Proteínas Ltda, com sede em Cacoal, uma pequena cidade no estado de Rondônia, no extremo oeste da Amazônia, foi fornecida pelo frigorífico de Rondônia DistriBoi, mostra um documento judicial de 2022. 

A DistriBoi foi multada há dois anos por comprar ilegalmente gado da reserva de conservação estadual Jaci-Paraná, que foi devastada pela pecuária ilegal.

Não há indícios de que as empresas envolvidas tivessem conhecimento do desmatamento em nível de fazenda. No entanto, as descobertas apontam para uma lacuna de rastreabilidade na cadeia de suprimentos de matérias-primas para combustíveis sustentáveis, onde os subprodutos da pecuária estão sujeitos a menos fiscalização do que as principais commodities do setor, como carne e couro. 

Vista aérea da entrada da Diamond Green Diesel, LLC, uma joint venture entre a Valero Energy Corporation e a Darling Ingredients Inc., em Port Arthur, Texas, EUA, em 30 de julho de 2025. REUTERS/Adrees Latif

A reserva Jaci-Paraná era coberta por uma floresta tropical intocada quando foi criada, há 30 anos, para proteger atividades florestais tradicionais, como a extração de látex e a colheita de nozes. 

Hoje, a pecuária ilegal devastou quase 80% da cobertura florestal e tornou-se um exemplo notório da destruição causada por grileiros na maior floresta tropical do mundo.

“Os danos à biodiversidade têm sido devastadores”, disse a ativista indígena local Neidinha Suruí, que participou do documentário “O Território”, vencedor do Prêmio Emmy de 2025.

Viagens aéreas mais ecológicas?

O “diesel renovável” e o combustível de aviação sustentável (SAF) que estão sendo exportados pela DGD – uma joint venture entre a refinaria de petróleo americana Valero Energy Corp e a Darling Ingredients, com sede no Texas – são classificados como “verdes” porque são feitos a partir de matérias-primas classificadas como resíduos, incluindo sebo, que consiste em gordura separada de carcaças de gado.

Muitos governos e companhias aéreas depositam suas esperanças em voos mais ecológicos com combustível de aviação sustentável (SAF) produzido com resíduos orgânicos, incluindo a Grã-Bretanha, que introduziu uma exigência obrigatória de mistura no ano passado.

O transporte aéreo é responsável por cerca de 2,5% das emissões globais de carbono e, ao contrário de outros setores de transporte que podem ser eletrificados, reduzir a pegada de carbono da aviação é muito mais difícil.

Resíduos como sebo bovino e óleo de cozinha usado (UCO) são considerados as matérias-primas viáveis ​​mais ecológicas para a produção de SAF (Combustíveis Sustentáveis ​​em Suspensão), visto que não competem com produtos alimentícios como óleo de soja ou óleo de palma, nem aumentam a pressão sobre o desmatamento.

Uma aeronave da Air France, operada com combustível de aviação sustentável (SAF) produzido pela TotalEnergies, é reabastecida antes de seu primeiro voo de Nice para Paris, no aeroporto de Nice, França, em 1º de outubro de 2021. REUTERS/Eric Gaillard

No entanto, existe a preocupação de que a corrida global para aumentar o uso de SAF possa exacerbar indiretamente a pressão sobre o desmatamento, aumentando a demanda por matérias-primas como sebo e óleo de cozinha usado.

Isso poderia aumentar as margens de lucro das fazendas de gado – incluindo as ilegais – e ter outras consequências não intencionais, como incentivar a fraude nas cadeias de suprimentos, conforme relatado pelo Climate Home News .

Uma investigação publicada em março pela Climate Home News e pela emissora sueca SVT revelou que a gigante finlandesa de biocombustíveis Neste está obtendo ingredientes essenciais para seu SAF (Combustível de Aviação Sustentável) de uma cadeia de suprimentos opaca que permite que óleo de palma fresco seja comercializado como óleo usado e residual.

Como o sebo é classificado como resíduo por órgãos reguladores em mercados como o Reino Unido e a UE, o esquema de certificação mais utilizado na indústria de combustíveis verdes – a Certificação Internacional de Sustentabilidade e Carbono (ISCC) – não avalia se houve desmatamento para a criação do gado que o produziu.

Isso permite que o sebo bovino seja considerado uma matéria-prima sustentável para combustíveis verdes, mesmo que os animais tenham sido criados em terras desmatadas ilegalmente.

“É evidente que existe uma falha nas regras se os produtos, neste caso o sebo animal, provêm originalmente de terras desmatadas”, afirmou Cian Delaney , coordenador de campanhas do grupo de defesa do transporte e energia limpos Transport & Environment.

Isso significa que as medidas governamentais de emissões de poluentes atmosféricos, destinadas a reduzir as emissões do transporte aéreo, podem ajudar a aumentar os rendimentos dos pecuaristas ligados ao desmatamento ilegal no Brasil, onde a pecuária e outras formas de agricultura têm sido os principais fatores de perda florestal.

Atacadistas de terras abrem caminho para pecuaristas 

Outrora coberta por uma densa cobertura de floresta tropical, a reserva Jaci-Paraná, em Rondônia, foi devastada pelo desmatamento ilegal impulsionado pela pecuária – uma das principais causas da perda de árvores na Amazônia.

Os grileiros se apropriaram – muitas vezes violentamente – e desmataram mais de três quartos da floresta para pastagem, à medida que a pecuária avança de forma constante para o sul da Amazônia.

Suruí, o ativista indígena local, afirmou que as empresas que compram produtos derivados de atividades ilegais perpetuam crimes ambientais na floresta tropical.

“Se não houvesse frigoríficos comprando gado de origem ilegal, não haveria grilagem de terras nem desmatamento”, disse Suruí à Repórter Brasil, que fez a nova investigação em parceria com a Unearthed e uma equipe de jornalistas apoiada pelo JournalismFund Europe. 

Processos judiciais e cadeias de suprimentos interligadas

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva prometeu acabar com todo o desmatamento no país até 2030, em parte fortalecendo a fiscalização ambiental na maior floresta tropical do mundo.

Em Rondônia, as autoridades abriram mais de 50 processos relacionados à grilagem de terras e ao desmatamento somente na reserva Jaci-Paraná. O frigorífico DistriBoi é citado em 31 desses processos, incluindo o de 2024 , no qual foi multado.

Segundo o documento judicial de 2022, referente a uma disputa trabalhista não relacionada, os advogados da Pacífico se referem à DistriBoi como a “maior fornecedora de matéria-prima” da fábrica de processamento de resíduos animais.

A DGD, com sede nos EUA, recebeu quase 15.000 toneladas de sebo da Pacífico entre 2023 e 2025 em sua refinaria no Texas, além de óleo de cozinha usado de diversos países e fontes, de acordo com o banco de dados comercial Panjiva.

Um rebanho de gado é visto na fazenda Marupiara, na cidade de Tailândia, estado do Pará, Brasil, em 17 de março de 2020. Foto tirada em 17 de março de 2020. Para acompanhar a reportagem especial BRASIL-DESMATAMENTO/GADO REUTERS/Pilar Olivares

A Darling Ingredients também é empresa controladora da Pacífico desde a aquisição, em 2022, da empresa brasileira de processamento de resíduos animais FASA Group.

Um porta-voz da Darling Ingredients negou que a Pacífico tenha obtido resíduos de carne bovina do matadouro Ji-Paraná da DistriBoi – um dos dois que a empresa de processamento de carne opera em Rondônia.

“A fábrica de processamento de resíduos animais Pacífico não adquire nenhum material do matadouro Distriboi em Ji-Paraná”, disse o porta-voz em resposta por e-mail, sem apresentar provas ou comentar diretamente o conteúdo do documento judicial de 2022.

Darling não respondeu a uma pergunta subsequente sobre o outro matadouro da Distriboi na região, que, de acordo com documentos de transferência de gado, também comprou gado de uma fazenda que desmatou ilegalmente a floresta dentro da reserva extrativista.

“Nossas relações são normalmente com o matadouro, estando a vários níveis de distância dos pecuaristas. Independentemente disso, estamos comprometidos em garantir que nossas matérias-primas sejam provenientes de fontes livres de desmatamento. Esperamos que nossos fornecedores de matéria-prima cumpram nosso código de conduta. Além disso, estamos em processo de exigir que todos os fornecedores de matéria-prima atestem que seu material é proveniente de fontes livres de desmatamento”, disse o porta-voz em comunicado. 

A DistriBoi afirmou, em aparente referência aos processos judiciais pendentes de Jaci-Paraná, que “as questões mencionadas… já estão sob análise, inclusive por tribunais superiores”. A empresa já havia negado qualquer irregularidade anteriormente. A declaração da empresa não abordou uma questão sobre seus laços comerciais com a Pacífico. 

A Valero Energy, a principal refinadora que é coproprietária da DGD juntamente com a Darling Ingredients, não respondeu aos pedidos de comentários, assim como a própria DGD.

Do matadouro às Forças Armadas de Singapura

Num esforço para conter as emissões de carbono provenientes do transporte aéreo, os reguladores do Reino Unido e da UE determinaram quotas progressivamente crescentes para a mistura de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) nos próximos anos, criando um novo mercado para matérias-primas, incluindo sebo bovino.

As exportações brasileiras de sebo para os EUA aumentaram acentuadamente nos últimos anos, passando de menos de 10.000 toneladas em 2021 para quase 400.000 toneladas no ano passado, segundo a Panjiva, refletindo a crescente demanda por biocombustíveis como o SAF (Combustível de Aviação Sustentável).

No Reino Unido, o maior mercado de aviação da Europa em termos de capacidade de assentos, o combustível de aviação deveria conter 2% de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) até o final de 2025, aumentando para 10% em 2030 e 22% em 2040.  

Segundo dados comerciais da Panjiva, a DGD exportou 134 mil toneladas de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) do Texas para o Reino Unido em 2025, num valor próximo a 90 milhões de dólares. A empresa também exportou quantidades menores de diesel renovável para a Grã-Bretanha.

Os dados mostram que a UE recebeu biocombustíveis – incluindo quantidades muito menores de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) – no valor de mais de US$ 1,1 bilhão da refinaria da DGD no Texas no ano passado. 

A investigação da Unearthed não conseguiu identificar quais companhias aéreas ou aeroportos compram o SAF da DGD quando este chega à Grã-Bretanha.

A Valero, outra empresa controladora da DGD, está se posicionando como um ator fundamental na transição para combustíveis com menor emissão de carbono no Reino Unido, onde comercializa seu diesel renovável sob a marca Texaco.

A empresa tem participado ativamente nas discussões sobre políticas de SAF (combustível de aviação suplementar) e criticou o limite planejado pelo governo para fontes de gordura residual no SAF, classificando-as como “a rota de produção de SAF mais rentável do mundo” em uma apresentação ao parlamento.

Contribuindo para a redução das emissões?

Uma supervisão ainda mais rigorosa das matérias-primas do SAF (Combustível de Aviação Sustentável) é crucial para garantir que as medidas de mistura, como a do Reino Unido, estejam efetivamente reduzindo as emissões, afirmou Anna Krajinska, diretora da Transport & Environment UK.

As florestas armazenam grandes quantidades de carbono e, quando são derrubadas ou queimadas, esse carbono é liberado na atmosfera. 

“Se houver sebo proveniente de terras desmatadas, essas emissões podem ser tão altas que talvez não se atinja o limite de redução de gases de efeito estufa”, disse Krajinska.

Um funcionário é fotografado abastecendo o Boeing 777-300ER da Emirates Airlines com Combustível de Aviação Sustentável (SAF, na sigla em inglês), durante um voo de demonstração histórico, enquanto um de seus motores operava com 100% de SAF, no aeroporto de Dubai, em Dubai, Emirados Árabes Unidos, em 30 de janeiro de 2023. REUTERS/Rula Rouhana

Mas, à medida que o apetite mundial por voos continua a crescer , alguns especialistas afirmam que o SAF (Combustível de Aviação Sustentável) é o único meio viável para reduzir as emissões da aviação atualmente.

Referindo-se às ligações com o desmatamento identificadas na investigação da Unearthed, Wouter Dewulf, economista da aviação da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, afirmou que “seria importante avaliar a dimensão dessa infração”.

“Tenho quase certeza de que existem exceções”, acrescentou Dewulf. “Mas os biocombustíveis são a melhor alternativa no momento.”

Delaney, da T&E, afirmou que é necessária mais transparência e melhor supervisão por parte das autoridades reguladoras. “No momento, existem muitos pontos cegos”, acrescentou.


Fonte: Climate Home News

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Deputado cobra investigação do Ibama e do Ministério Público e cita terceirizada Costa Pinto como envolvida no episódio

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Em 2019 foram registradas mortes de abelhas causadas por agrotóxicos em SC, RS, MS e SP (Getty Image)

Por Edir Viégas para “Vox” 

Acidente ambiental de graves proporções que resultou no extermínio por envenenamento de centenas de milhares de abelhas resultou em Moção de Repúdio e pedido de investigação na Assembleia Legislativa contra a multinacional e gigante de celulose Suzano.

Requerimento nesse sentido foi apresentado pelo deputado Zeca do PT na sessão desta quarta-feira (8), que também responsabilizou a empresa Costa Pinto, terceirizada da Suzano e responsável pela situação.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa
Plantação de eucalipto próxima a um fragmento do Cerrado, na região de Santa Rita do Pardo (UFMS/Divulgação)

Colmeias dizimadas

A mortandade das abelhas aconteceu em dezembro do ano passado no município de Santa Rita do Pardo. Foram dizimadas 20 colmeias instaladas ao lado da floresta de eucalipto da Suzano.

Vídeo postado no canal da ONG uruguaia World Rain Forest Movement (Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais) no Youtube sugere que a multinacional teria tentado compensar o apicultor que perdeu as colmeias.

“Ele deve ter borrifado aqui tudo e entrou lá. Eu vi a caminhonete da Suzano e o pessoal da [empreiteira] Costa Pinto com o trator. O técnico estava com eles, então eles não têm desculpa”, diz o autor do vídeo, o apicultor identificado como Davi.

“A Suzano me disse: calcule o prejuízo. E eu disse: não vou calcular nada, até porque vocês vão me pagar e vão continuar. É uma outorga para vocês matarem minhas abelhas de novo”, relata o apicultor.

Crime ambiental

Pulverizar agrotóxicos em época de floração é considerado uma prática ilícita no Brasil, podendo ser configurado como crime ambiental, especialmente quando causa a morte de abelhas e outros polinizadores, essenciais para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.

Moção de repúdio

“Manifestamos nosso repúdio em face à atuação da empresa Suzano no Estado do Mato Grosso do Sul, bem como de sua prestadora de serviço, a empreiteira Costa Pinto, diante das graves denúncias de uso irregular de agrotóxico que resultaram na mortandade massiva de abelhas”, disse Zeca do PT ao se reportar à denúncia.

De acordo com ele, o acidente ambiental aconteceu na região de Santa Rita do Pardo e foi denunciado por produtores locais.

“Eles denunciaram a implantação de substâncias tóxicas, bem como o inseticida à base de friponil, em período de floração, prática considerada ilegal e altamente prejudicial aos polinizadores e ao equilíbrio ambiental”, esclareceu o parlamentar.

Veneno foi banido na Europa

O fipronil, segundo informações do próprio fabricante, é especialmente perigoso para as abelhas, mesmo em doses muito baixas. Os efeitos vão além da morte imediata — ele compromete funções essenciais para a sobrevivência da colônia.

Desde 2014 ele é proibido em culturas agrícolas da União Europeia justamente pelo alto risco de mortalidade em massa de abelhas e outros polinizadores. No Brasil, o uso é liberado.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa
Flagrante da mistura de glifosato e fipronil, ambos venenos que matam insetos polinizadores (Divulgação/UFMS)

Prática comum

O caso do apicultor do vídeo não é o único. Marine Dubos-Raoul é geógrafa, doutora pela Universidade Paris 8, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do Instituto Pró-Cerrado Vivo. 

Ela conta que em 2019, no município de Brasilândia, vizinho de Santa Rita do Pardo, realizou pesquisas em um assentamento onde houve relatos de impactos por pulverização de agrotóxicos em canaviais. Desde então, começaram a surgir cada vez mais histórias similares.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Ameaça à biodiversidade

“Relatos de apicultores apontam que a pulverização desses produtos provocou a morte de colmeias inteiras, afetando diretamente a produção apícola e subsistência de trabalhadores rurais, além de representar grave ameaça à biodiversidade do bioma cerrado”, disse Zeca do PT.

Ele esclareceu que especialistas alertam sobre o uso indiscriminado de agrotóxico, que impacta não apenas as abelhas, mas toda a fauna e flora, comprometendo o equilíbrio do ecossistema.

 Ressalta-se que as abelhas desempenham um papel essencial na polinização e na produção de alimentos, sendo responsável por grande parte da manutenção da vida vegetal e da segurança alimentar.

Sua eliminação, em larga escala, configura não apenas dano ambiental, mas um risco sistêmico à agricultura familiar e à vida humana. 

Zeca do PT exigiu rigorosa apuração dos fatos pelos órgãos competentes, como o Ibama e o Ministério Público, e solicitou “a responsabilização da empresa, caso comprovada as irregularidades”.

Outro lado

Vox MS encaminhou pedido de esclarecimento à assessoria de imprensa da Suzano, que se manifestou por meio de nota.

A companhia apoia mais de 158 apicultores e apicultoras no Mato Grosso do Sul por meio do seu Programa de Apicultura. Em 2024, a iniciativa contribuiu para a produção de 309 toneladas de mel, o que representa 40% da produção no estado. 

Todas as operações da empresa seguem rigoroso processo de conformidade legal e socioambiental, com observância das normas nacionais e internacionais, e são atestadas por certificações internacionais. 

A companhia reitera que busca os mais altos padrões de manejo florestal, e utiliza apenas defensivos devidamente registrados no MAPA e aprovados pelos órgãos sanitários, respeitando as recomendações técnicas da bula, fichas de emergência e do receituário agronômico. 

Além do cuidado com o meio ambiente, o compromisso com as pessoas pela companhia se reflete na comunicação prévia realizada com os apicultores conveniados ao Programa de Apicultura ou cadastrados no estado como vizinhos da empresa, por meio de sua equipe social, antes de qualquer aplicação de defensivos em suas operações florestais. 

A companhia orienta ainda aos públicos de relacionamento a sinalizarem por meio de canais de comunicação abertos para envio de dúvidas, sugestões, denúncias ou busca de informações sobre quaisquer temas que julgarem relevantes, com a Suzano prontamente endereçando essas solicitações.


Fonte: Vox

O uso de glifosato na agricultura do Reino Unido aumentou 1.000% desde 1990

Glyphosate use in UK farming up 1,000% since 1990 | News | The Grocer

Por PAN UK 

Uma análise de dados oficiais do governo – divulgada no dia 09/04 pela PAN UK – revela que a quantidade de glifosato aplicada às plantações no Reino Unido aumentou de 200 toneladas métricas por ano em 1990 para mais de 2.200 toneladas em 2024. Aumentos significativos foram observados em uma ampla gama de culturas. Por exemplo, mais de 66 toneladas de glifosato foram aplicadas em batatas britânicas em 2024, contra 1,5 tonelada em 1990. Durante o mesmo período, a área de terras agrícolas no Reino Unido tratadas com o herbicida tóxico aumentou dez vezes, chegando a mais de 2,6 milhões de hectares em 2024, dezesseis vezes o tamanho da Grande Londres. A grande maioria desses aumentos ocorreu no setor de culturas aráveis, com destaque para os cereais (trigo, cevada e milho).

Embora os dados fora do setor agrícola sejam muito mais fragmentados, o uso de glifosato por conselhos locais em espaços públicos, como parques, áreas de lazer e ruas, também parece ter crescido drasticamente. De acordo com estatísticas oficiais do governo do Reino Unido, os conselhos locais utilizaram aproximadamente 60 toneladas de produtos à base de glifosato em 2020. No  entanto, o maior levantamento já realizado sobre o uso de pesticidas por conselhos, publicado no ano passado, revelou que eles utilizaram pelo menos 354 toneladas de pesticidas em 2024, sendo que a grande maioria continha glifosato.

Esses aumentos expressivos serão minuciosamente analisados ​​ainda este ano, já que o governo do Reino Unido precisa decidir até meados de dezembro se renovará a aprovação do glifosato. Caso optem por conceder a licença máxima de 15 anos, é improvável que haja oportunidade de revisão da decisão até 2041.

“Os números de hoje revelam que o vício em glifosato no Reino Unido saiu completamente do controle. O uso excessivo desse produto químico tóxico está causando uma série de problemas, e ainda assim continuamos a pulverizá-lo nos alimentos que consumimos e nos locais onde nossas crianças brincam. Sabemos que o glifosato está ligado a diversos tipos de câncer e outras doenças potencialmente fatais. Além disso, ele prejudica o meio ambiente, poluindo nossas águas e afetando a vida selvagem. O governo precisa urgentemente se comprometer a eliminar gradualmente – e, em última instância, proibir – o glifosato e apoiar os agricultores e as administrações locais na adoção de alternativas seguras e sustentáveis. Caso contrário, todos continuaremos a pagar o preço.”  Nick Mole, Analista de Políticas, PAN UK

Um trator pulverizando campos. Crédito: Foto-up / Shutterstock.org

Crédito Foto-up / Shutterstock.org

O glifosato – frequentemente conhecido por sua marca mais comum, Roundup – tem sido alvo de controvérsia há muitos anos devido ao crescente número de evidências que demonstram seu potencial para causar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente. Nos EUA, foi objeto de uma série de processos judiciais que levaram o fabricante a pagar US$ 11 bilhões a pacientes com câncer que alegam que o herbicida causou linfoma não Hodgkin ou outros tipos de câncer relacionados.  O governo francês reconheceu a ligação entre a doença de Parkinson e o glifosato e tem pago indenizações a agricultores.

Também foi demonstrado que o produto químico tem impactos ambientais negativos de grande alcance, desde a contaminação da água até danos diretos e indiretos a uma variedade de animais selvagens, incluindo anfíbios , abelhas e outros polinizadores.  Embora seja apresentado por alguns como uma solução para as mudanças climáticas, o glifosato é derivado de combustíveis fósseis e produz 31,29 quilogramas de CO2e por quilograma de produto químico produzido.

Devido ao uso excessivo, as ervas daninhas no Reino Unido estão se tornando resistentes ao glifosato . Os primeiros casos de resistência foram confirmados em 2025 e estão se tornando cada vez mais comuns.  A resistência já é um problema antigo nos EUA, onde o glifosato é usado em grandes quantidades.

Em 2023, a UE proibiu o uso de glifosato na dessecação pré-colheita , uma prática que consiste em pulverizar a plantação com produtos químicos pouco antes da colheita para secá-la.  No entanto, o Reino Unido continua permitindo o uso de glifosato como dessecante pré-colheita, apesar de frequentemente resultar em altos níveis de resíduos nos alimentos.

“A clara evidência do aumento do uso de glifosato nessa escala deveria servir de alerta. Isso mostra que temos dependido demais de um único produto químico, principalmente em nossos sistemas de cultivo. Precisamos reduzir o uso de glifosato, e poderíamos começar com seu uso como dessecante pré-colheita em culturas destinadas à cadeia de suprimentos alimentares. Também devemos evitar múltiplas aplicações no mesmo campo na mesma safra. Os agricultores precisam de alternativas práticas, bons conselhos e incentivos adequados do governo e da cadeia de suprimentos para reduzir o uso de pesticidas. E devemos evitar simplesmente pressionar os agricultores a adotarem outro produto ou sistemas de cultivo excessivos que levam a resultados ruins para a natureza e nossos solos.” ​​Martin Lines, agricultor e CEO da Nature Friendly Farming Network 

O Reino Unido e a UE estão atualmente negociando um novo Acordo SPS, que provavelmente levará o Reino Unido a adotar a licença de dez anos concedida pela UE para o glifosato em 2023. Enquanto isso, o governo britânico deve tomar sua própria decisão sobre o glifosato até 15 de  dezembro de 2026 e afirmou que lançará uma consulta pública de 60 dias em junho.

A PAN UK está pedindo que o glifosato não seja reaprovado. No entanto, se uma nova licença for concedida, ela deverá vir acompanhada de um conjunto de restrições destinadas a reduzir o uso geral e limitar o impacto da exposição ao glifosato na saúde humana e no meio ambiente, incluindo:

  • Proibição de vendas a usuários não profissionais, como jardineiros amadores.
  • Proibido o uso em espaços públicos, como parques, calçadas, playgrounds, escolas e hospitais.
  • Proibição do uso na dessecação pré-colheita – isso contribuiria significativamente para ajudar o governo do Reino Unido a atingir sua meta de reduzir o uso e os danos causados ​​por pesticidas no setor agrícola em 10% até 2030.

Fonte: PAN UK

Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental lança publicação, Veredas do III SIMGAT: Comunicações 

A Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental acabar de lançar a publicação na forma de E-Book a obra “Veredas do III SIMGAT: Comunicações apresentadas nos Grupos de Trabalho, fruto do III Simpósio Nacional Geografia, Ambiente e Território, (SIMGAT) realizado no Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO), da Universidade Estadual de Goiás (UEG), na Cidade de Goiás (GO), em junho de 2025. O evento teve como tema central Geografia e Ecologia Política: Conflitos (socio)ambientais no Brasil e nos territórios do Cerrado e Pantanal – Da pesquisa ao enfrentamento. 

O E-book conta com 33 capítulos que estão organizados em quatro Veredas (eixos temáticos), cujos temas são: Vereda 1 – Riscos e vulnerabilidade, contaminação e desastres; Vereda 2 – Críticas ao neoextrativismo: dimensões geobiofísica e sócio-espacial; Vereda 3 – Da “devolutiva” à cooperação: divulgação de resultados e colaboração com atores sociais; e Vereda 4 – Temas emergentes em Geografia Ambiental e Ecologia Política.

Esta obra se soma a outras publicações que a RP-G(S)A tem realizado no âmbito das discussões sobre Geografia Ambiental e Ecologia Política, como é caso da já consolidada AMBIENTES: Revista de Geografia e Ecologia Política e de seus eventos, como é o caso dos SIMGATS e dos Beiradeandos o SIMGAT.

E muito em breve, uma nova publicação da RP-G(S)A será lançada, e é importante lembrar que todo acesso ao conteúdo da RP-G(S)A é gratuito. Além disso, as publicações e contato podem ser facilmente obtidas por meio de um dos links a seguir.

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A pavimentação da BR-319 trará aumento de riscos de biossegurança, aponta artigo publicado pela Science

Uma equipe de pesquisa coleta amostras em campo para monitoramento epidemiológico em áreas da Amazônia central.
FOTO: Ferrante et. al.
Lucas Ferrante e outros para “Science”
O desmatamento das florestas amazônicas representa riscos crescentes à biossegurança em escalas local, regional e global ( 1 ). O recente acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a exacerbar o desmatamento, acelerando a expansão do agronegócio brasileiro ( 2 ) — especialmente a pecuária e a produção de soja — em terras ocupadas ilegalmente no sul e centro da Amazônia ( 3 ). Essa expansão está sendo ativamente facilitada pelo governo brasileiro por meio da consolidação da rodovia BR-319 ( 3 ), que liga Porto Velho a Manus, no centro do arco de desmatamento amazônico, e por meio de seu apoio político à mineração de potássio ( 4 ) em uma área do município de Autazes historicamente ocupada pelo povo indígena Mura ( 5 ). Além de afetar o desmatamento, esses projetos irão perturbar florestas, solos e sistemas hidrológicos intactos, forçando um novo contato entre humanos, animais e comunidades microbianas anteriormente isoladas ( 6 )
Análises metagenômicas recentes revelam que o corredor central BR-319 e as áreas propostas para extração de potássio abrigam conjuntos microbianos desconhecidos enriquecidos em genes associados à resistência a antibióticos, alta virulência, toxicidade e transferência horizontal de genes ( 6 ). A perturbação desses reservatórios cria condições ecológicas que facilitam a disseminação de patógenos e a recombinação genética com patógenos humanos conhecidos, amplificando os riscos globais de biossegurança ( 1 , 6 ).
A limitada capacidade institucional para detectar, conter e responder a patógenos emergentes na Amazônia já produziu consequências internacionais mensuráveis ​​( 1 ). A variante gama do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) surgiu em Manaus e rapidamente cruzou fronteiras internacionais ( 7 ). Se consolidada, a rodovia BR-319 conectaria um dos maiores reservatórios zoonóticos do mundo a aeroportos internacionais, aumentando substancialmente a velocidade e a escala com que novos patógenos poderiam se disseminar globalmente ( 1 , 6 ). Mais recentemente, uma nova linhagem do vírus Oropouche, originária do corredor da BR-319, expandiu-se para além do Brasil ( 8 ), com circulação confirmada na América Central e na Europa ( 9 , 10 ). Esses casos demonstram que o vazamento de patógenos da Amazônia não é um risco hipotético futuro, mas um processo contínuo, com implicações globais para a saúde pública ( 6 ).
Essas evidências foram formalmente submetidas ao Ministério do Meio Ambiente do Brasil ( 6 ), onde as autoridades são legalmente obrigadas a avaliar toda a documentação técnica. As mesmas obrigações se aplicam à autoridade estadual do Amazonas responsável pela licença para mineração de potássio em Autazes. Nossos resultados indicam que a consolidação da BR-319 e a mineração de potássio não apenas estão ligadas ao desmatamento e à instabilidade climática, mas também criam vias ativas para o surgimento e a disseminação global de patógenos ( 6 ). Em consonância com o princípio de Saúde Única e o princípio da precaução ( 11 ), esses projetos justificam uma reavaliação urgente, inclusive por parte dos parceiros comerciais internacionais.

Fonte: Science

Mercado clandestino de agrotóxicos vira fonte lucrativa de negócios para facções criminosas

Com fiscalização insuficiente e rotas consolidadas, produtos falsificados e contrabandeados podem representam até um quinto do mercado no agro

agronegócio

Fotomontagem: Ca Aulucci/JOTA

Por Victoria Lacerda para “Jota”

Os agrotóxicos se tornaram uma frente estratégica para a infiltração do crime organizado no agronegócio brasileiro, com riscos que preocupam o setor. Esse é um dos mercados ilícitos das organizações criminosas, que migraram das cidades para se fixar no interior e áreas rurais, com logísticas próprias e negócios rentáveis.

Ao longo da última década, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a disputar territórios nas zonas agrícolas, onde encontram infraestrutura consolidada para o transporte, menor presença do Estado e cadeias produtivas com grande circulação financeira, de acordo com diagnóstico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

“Essa combinação cria oportunidades para que áreas agrícolas funcionem como hubs logísticos para diferentes mercados ilícitos”, explica Leonardo Silva, pesquisador sênior do FBSP. O mercado de defensivos agrícolas ilegais é uma das mais novas minas de ouro da interiorização das facções.

Esses produtos se movimentam por elos logísticos próprios do crime organizado, que formam a chamada “Rota Caipira”, conectando fronteiras ao interior do país. Dados da Receita Federal e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) obtidos pelo JOTA, somados a levantamentos do setor, dão pistas sobre o espaço ocupado por esse mercado ilegal.

O volume total de agrotóxicos apreendidos nas rodovias federais, incluindo produtos contrabandeados, falsificados, adulterados ou sem registro no país, chegou a 127 toneladas em 2025, mais do que o dobro das 62,9 toneladas apreendidas em 2024. Antes, em 2023, o volume se aproximava de 200 toneladas.

Ao mesmo tempo, as apreensões de agrotóxicos irregulares pela Receita cresceram 55% entre 2020 e 2025, atingindo R$ 16,4 milhões. Mas o pico foi em 2023, com quase R$ 60 milhões apreendidos.

As oscilações nas apreensões não indicam, necessariamente, quedas nesse mercado ilegal, mas subnotificação e limitações dos órgãos de controle. “Os números variam conforme o foco das operações e as prioridades estratégicas. Em alguns períodos, a fiscalização é direcionada para determinados tipos de ilícitos ou regiões específicas, o que pode influenciar o volume de apreensões”, explica o chefe do setor de enfrentamento aos crimes transfronteiriços da PRF, Thiago de Castro.

Além disso, a detecção pelas autoridades é complexa: os defensivos são ocultados como outras mercadorias, enviados em pequenas cargas ou fragmentados. O uso de estradas vicinais e vias secundárias também tem sido uma estratégia de sucesso para evitar fiscalização.

“Muitas vezes, a identificação exige conhecimento técnico específico. Sem essa qualificação, é difícil distinguir um produto falsificado ou irregular apenas pela análise visual”, afirma Castro.

Os números da Receita Federal sugerem ainda que mercado ilegal de agrotóxicos não se restringe a rotas rodoviárias, mas envolve cadeias internacionais de fornecimento e distribuição. A concentração geográfica das apreensões reforça esse ponto.

No ano passado, as maiores apreensões ocorreram em cidades como Eldorado (MS), quase na fronteira com o Paraguai; e em Boa Vista, capital próxima à divisa com a Venezuela e Guiana. Em 2026, o padrão se mantém, com Mato Grosso do Sul, Goiás e Rio Grande do Sul entre os estados com maior número de apreensões até agora.

Oportunidades de mercado

Tradicionalmente, as regiões de fronteira com Paraguai e Bolívia, funcionam como principal porta de entrada do contrabando de drogas, armas e cigarros. Essas rotas foram então adotadas para o tráfico de  agrotóxicos ilegais, que se conectam à malha de transporte do agronegócio legítimo.

“As organizações criminosas aproveitam a infraestrutura logística já existente para ampliar a distribuição de insumos agrícolas ilegais”, comenta Nilto Mendes, gerente de Combate a Produtos Ilegais da CropLife Brasil.

Assim, a Rota Caipira do crime usa um corredor logístico que atravessa desde as fronteiras do Mato Grosso do Sul e Paraná, até polos agrícolas de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Ela também se formou a partir de uma oportunidade de mercado: uma ampla e pulverizada infraestrutura rodoviária, justamente para o escoamento da produção agropecuária, somada a brechas de fiscalização.

Embora o uso desse corredor por organizações como o PCC seja conhecido, especialistas apontam que o enfrentamento é afetado pela extensão territorial, multiplicidade de vias secundárias e a adaptação constante das organizações criminosas.

Essa rede opera com divisão de funções, envolvendo transportadoras, caminhões e intermediários locais para pulverizar a distribuição e confundir a fiscalização, segundo as investigações. Para impedir que os produtos sejam rastreados, elas falsificam rótulos e reutilizam embalagens. Por fim, o mercado do insumo agrícola se consolidou como um dos elos de lavagem de dinheiro das facções.

Contudo, a estratégia logística e operacional não foi um único fator a permitir que esse mercado florescesse. O próprio desenvolvimento do agronegócio brasileiro gera uma demanda sempre crescente por insumos agrícolas, o que, na falta de fiscalização mais robusta sobre os materiais aplicados pelos produtores, fomentou a atratividade do mercado ilegal de defensivos.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) é responsável por operações de fiscalização e controle sobre o uso de  agrotóxicos, mas a avalição do setor é que os preços baixos, aliados a lacunas na fiscalização e na rastreabilidade, facilitam a adesão ao mercado ilegal.

A pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos comenta que o avanço faz parte de uma estratégia mais ampla do crime organizado. “As organizações criminosas têm buscado novos mercados com alta circulação financeira e menor capacidade de fiscalização. O agronegócio reúne essas características”, afirma.

E a demanda não deve diminuir. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), a área tratada com defensivos deve alcançar 2,6 bilhões de hectares em 2025, com crescimento de 6,1% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, estimativas do setor indicam que produtos ilegais podem representar até um quinto do volume total de defensivos usados no Brasil

A presença desses produtos, além de representar concorrência desleal, cria riscos operacionais e comerciais para produtores e empresas, além de levantar preocupações ambientais e sanitárias. Produtos sem registro podem contaminar solos e mananciais, além de gerar resíduos acima dos limites permitidos, por exemplo.

Agora, uma nova preocupação é que a penetração do crime possa ser facilitada pela pressão de preços exercida em fertilizantes e insumos agrícolas, devido a conflitos geopolíticos. O início da Guerra no Irã, em fevereiro, fez disparar o preço da ureia, utilizada na fabricação de fertilizantes nitrogenados. Com isso, o produtor precisará cortar custos e pode ter um incentivo a mais para migrar para o mercado ilegal de agrotóxicos.

Combate à nova fronteira do crime no agro

Diante desse cenário e de seu papel estratégico, o mercado ilegal de  agrotóxicos passou a ganhar mais prioridade no combate ao crime organizado. Ele ganhou atenção em iniciativas como o Programa Vigia, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e operações integradas no âmbito do Plano Nacional de Fronteiras.

A atuação conjunta entre forças de segurança, aduana e fiscalização agropecuária também tem aumentado as apreensões e permitido mapear rotas utilizadas pelo crime organizado. Ainda assim, especialistas avaliam que a dinâmica do crime organizado tem evoluído de forma mais rápida do que a capacidade de resposta do Estado.

Nilto Mendes, da CropLife Brasil, aponta que, embora as apreensões tenham aumentado, elas ainda não são suficientes para conter a expansão das redes criminosas, já que elas operam com logística estruturada e distribuição pulverizada.

Na perspectiva da pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos, o avanço do crime organizado para atividades econômicas legais, como cadeias produtivas agrícolas, e por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro torna o combate ainda mais complexo. Isso exigiria esforços melhor coordenados.

Nessa linha, um ponto crítico é a necessidade de integração entre diferentes órgãos, desde as forças de segurança até a vigilância agrícola. A ausência de compartilhamento sistemático de dados e de estratégias conjuntas entre fiscalização, inteligência e investigação limita a capacidade de atuação. Ainda, em regiões de fronteira, a cooperação internacional também é essencial para reduzir a entrada de produtos ilegais.

Além disso, esse combate passa por aprimorar a integração entre forças de segurança, fiscalização agropecuária e inteligência financeira, com foco na identificação de redes de lavagem de dinheiro ligadas ao agronegócio. A recomendação aparece em análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reunidas no Boletim de Análise Político-Institucional, que apontam a necessidade de ampliar operações conjuntas e fortalecer o monitoramento de rotas logísticas utilizadas pelo crime organizado, por exemplo.

Com a conexão tão forte entre crime e demanda do agronegócio, o enfrentamento ao problema dependerá de estratégias integradas entre segurança pública, fiscalização e políticas agrícolas.


Fonte: Jota